O Prefeito puxou o bloco… e a administração ficou para trás.
Blocos tradicionais reaparecem, marchinhas dividem espaço com o axé e a rua vira sala coletiva. Criança corre com espuma, adulto esquece boletos por algumas horas e a cidade lembra que ainda sabe conviver. O Carnaval não resolve os problemas, mas devolve energia para enfrentá-los. É política pública cultural das mais antigas, talvez a mais eficaz quando se trata de reunir gente diferente em torno de algo comum.
A transformação é tamanha que até quem já teve passado musical resolve revisitar os velhos tempos. No alto do palco, quem governa canta, puxa refrão conhecido, divide o microfone com artista e a multidão responde com entusiasmo imediato. O público não analisa a gestão enquanto pula. O público vive o momento. E vive bem. A cena cria identificação, aproxima, humaniza. Não há problema algum em ver a autoridade sorrindo, cantando e participando da alegria coletiva.
O contraste aparece depois. Durante o Carnaval (e nos outros grandes eventos do calendário, do aniversário da cidade ao réveillon, passando até por celebrações de fé que às vezes parecem mais organizadas para o palco do que para o altar), a presença é intensa. Há disposição, energia e participação direta. A dúvida começa quando a festa acaba e a rotina volta.
Fora da música alta, a cidade segue exigindo aquilo que não rende aplauso. Governar acontece cedo, sem iluminação, sem plateia e sem refrão. Acontece na continuidade do serviço, no acompanhamento diário, na solução que não vira vídeo curto. E é justamente aí que o morador começa a perceber diferença entre proximidade simbólica e presença real.
Nos bairros onde não há palco permanente nem câmera apontada, a população não precisa de animação eventual. Precisa de funcionamento constante. A alegria do Carnaval é bem-vinda e importante, mas não substitui a administração cotidiana. Popularidade é instantânea. Confiança é acumulada.
Ninguém espera que o prefeito se afaste da cultura local. A cidade até prefere vê-lo participando. O que se espera é coerência. A mesma empolgação demonstrada no trio também precisa aparecer longe dele. A mesma disposição para puxar um refrão precisa existir para enfrentar problemas que não têm trilha sonora.
Quando o último som desliga e o caminhão de som vai embora, não fica o coro. Fica a cidade real. E Ilhéus torce para não perceber que, passada a festa, restou apenas uma longa quarta-feira de cinzas.
Por: Professor Emenson Silva
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