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A Caneta, os Óculos e o Espelho do Porto

Numa cidade litorânea do Sul da Bahia, onde o mar desenha a costa e a brisa carrega o cheiro de sal, cacau e madeira molhada, tem uma prefeitura de janelas altas e portas que rangiam com o vento. Quem a dirigi é um jovem prefeito de postura impecável, vaidoso, que se comporta como um verdadeiro "agente 007" do progresso local. Em todas as reuniões com vereadores e empresários, nunca aparecia sem dois objetos: uma caneta de corpo escuro e um par de óculos de aros finos. Dizia que eram ferramentas de gestão e memória. Poucos percebiam que, sob aquela fachada de organização, pontas e lentes registravam cada palavra dita em confiança.

No início, os encontros fluíam com naturalidade. Projetos eram esboçados, parcerias sugeridas, acordos selados com apertos de mão. O prefeito anotava, ajustava os óculos, arquivava mentalmente cada detalhe. Mas, com o passar dos meses, o ar pesou. Frases ditas em tom de desabafo ressurgiam em ofícios. Promessas de bastidor viravam exigências públicas. O que antes era diálogo virou dossiê. A boa fé, tão firme quanto os cascos dos saveiros no cais, começou a ceder.

Certa manhã, um velho mestre carpinteiro, conhecido por consertar portas que travavam e janelas que deixavam o vento entrar, foi chamado ao gabinete. Trazia uma caixa de madeira envernizada. Ao colocá-la sobre a mesa, disse:

— Trouxe um tampo novo para suas assembleias. Mas, antes, peço que guarde a caneta e tire os óculos.

O prefeito obedeceu, alisando a lapela do paletó como quem ajeita uma armadura. O velho então abriu a caixa. Dentro, um espelho antigo, polido pelo sal e pelo tempo, refletiu a sala inteira.

— O espelho não julga — explicou. — Só mostra. Quando quem dirige prefere gravar o não dito, esconder ouvidos atrás de gestos comuns e trocar a escuta pela vigilância, o diálogo vira armadilha. A boa fé não se prova com arquivos ocultos, mas com palavras ditas à luz do sol. A honestidade não se mede pelo que se retém, mas pelo que se entrega com clareza.

O prefeito calou-se. A vaidade, porém, é um vento que sopra forte nas cidades de praia, e ele seguiu à frente, mantendo o cargo, as agendas e os hábitos. Mas a semente da reflexão foi lançada. Vereadores e empresários passaram a exigir atas públicas, a falar com precisão, a lembrar que a confiança se constrói com gestos visíveis, não com segredos gravados. E o prefeito, ainda no comando, carrega agora o peso silencioso de saber que a cidade o observa — não por curiosidade, mas por direito.

Moral:

Quem governa gravando em vez de ouvir, que troca a boa fé pela espionagem e a ética pela vaidade, quebra o alicerce do pacto público. A verdadeira liderança não se fortalece com lentes ocultas, mas com a coragem de dialogar à vista de todos. E o poder só se sustenta quando a honestidade é a única lei que não precisa ser escondida.

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