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Ilhéus vive dois mundos e fingir que não vemos isso é parte do problema

Ontem estive na zona rural de Ilhéus, nas estradas vicinais que deveriam conseguir nos levar para a comunidade histórica do Rio do Braço. Fui eu e uma das tecnologias que só o centro da cidade pode usufruir (e antes de falarem qualquer coisa, o patinete passa bem e está junto dos seus, na Av. Soares Lopes, pronto para quem não precisa pisar na lama diariamente continuar se divertindo). Esse vídeo não foi um recurso de impacto gratuito, nem uma cena isolada escolhida ao acaso. Ele é apenas um recorte cru de uma realidade que muitos preferem não enxergar. Uma visita feita a pedido dos próprios moradores. 

Ilhéus, hoje, vive dois mundos distintos. Um aparece nas fotos oficiais, nas campanhas publicitárias, nos eventos e nas promessas. O outro segue esquecido, abandonado e invisível, especialmente quando se trata da zona rural, dos distritos e dos bairros periféricos.

Enquanto o centro da cidade recebe radar, iluminação, asfalto, intervenções apressadas e sem planejamento ou estudo técnico, eu já falei de radares? O interior sofre em silêncio. Estradas intransitáveis, ausência de apoio técnico, falta de transporte digno, escolas precarizadas e serviços de saúde que simplesmente não chegam. Não se trata de opinião, mas de fatos observáveis, registrados por moradores e confirmados diariamente por quem vive fora do raio da “cidade vitrine”.

A gestão municipal insiste em governar a partir de uma lógica de visibilidade. Onde há foto, há ação. Onde não há palco, sobra abandono. O poder público aparece no interior apenas em época de promessa, com discursos bem ensaiados e soluções que nunca se materializam. Passada a eleição ou a agenda institucional, resta novamente o silêncio e a lama.

É preciso dizer com clareza, a zona rural também é Ilhéus. Ela produz, sustenta e alimenta a cidade. É do campo e das águas que vem boa parte do que chega às mesas, inclusive às mesas do próprio poder. Ainda assim, agricultores, pescadores, marisqueiras e trabalhadores rurais seguem tratados como se fossem um detalhe incômodo do território e não parte essencial dele.

O contraste se torna ainda mais grave quando se observa a escolha de prioridades. Em um momento em que a saúde pública enfrenta decretos de emergência, milhões de reais são destinados a eventos e festas. Não se trata de demonizar a cultura ou o lazer (quer dizer, sobre cultura também há muitas controvérsias), mas de questionar a lógica de um governo que encontra recursos para o espetáculo, mas não para garantir o básico a quem vive longe da vitrine.

O abandono do interior não é apenas um problema de infraestrutura. É um problema de respeito, de planejamento e de visão de cidade. Sem estradas, não há escoamento da produção. Sem transporte, não há acesso à escola. Sem a presença do Estado, cresce o sentimento de exclusão e descrédito nas instituições.

Este editorial não busca personalizar ataques nem transformar a crítica em espetáculo. Ele é um chamado à realidade. Fingir que Ilhéus está indo bem porque algumas áreas estão iluminadas é compactuar com a desigualdade territorial que se aprofunda. A propaganda pode até funcionar por um tempo, mas ela não tapa buraco, não cura doente e não tira ninguém do isolamento. 

É hora de olhar para quem sempre foi invisível. Não como favor, não como promessa, mas como obrigação de quem governa.

Ilhéus não pode continuar sendo uma cidade de dois mundos. Porque quando o poder público escolhe enxergar apenas um deles, o outro cobra, cedo ou tarde, a conta do abandono.

Por: Professor Emenson Silva

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