"Quem nasce pra brilhar não apaga por ingratidão"
Neste Carnaval, enquanto as ruas do Pontal vibravam com o suingue das Muringuetes, faltou um grito que ecoava há 17 anos: "Minhas gostosas Muringuetes!". Faltou a irreverência que transformava bloco em celebração, multidão em família. Faltou Abidias — não por cansaço, não por desistência, mas por uma ferida silenciosa: a ingratidão disfarçada de "mudança".
Tem um dito antigo que o povo baiano carrega na alma: "Cachorro não come cachorro, mas homem come homem sem sal". E é assim que a vida às vezes nos surpreende: aquele que te chamava de "irmão", que jurava que você só pararia quando quisesse — "nem por interferência política, nem de ninguém" — de repente vira o rosto e diz que "as coisas mudaram". Como se décadas de suor, de voz rouca cantando em homenagem ao saudoso Muringa, de pés na lama arrastando milhares de foliões, pudessem ser apagadas por uma frase burocrática.
Abidias não é apenas um músico. Há mais de 30 anos ele carrega a alma de Ilhéus nas cordas da sua guitarra e no timbre da sua voz. Com a Banda S4 e Cia, com o Grupo Chupeta de Ganso, mas principalmente como o puxador oficial das Muringuetes do Pontal, ele se tornou identidade. Não era um contratado: era o sentimento do bloco. Era quem transformava uma homenagem em emoção coletiva, quem fazia avó sambar com neto, quem levava a multidão ao delírio com um simples aceno de mão.
E quando ofereceram a ele um canto menor — "toca só na concentração" — não foi um convite; foi uma despedida disfarçada de gentileza. Uma flechada no peito de quem dedicou anos à paixão, não ao cargo.
Mas aqui está o segredo que a ingratidão nunca entenderá: talento não se demite. Carisma não se rescinde. Fé não se negocia.
E é nessa fé que Abidias segue. Porque quem constrói história com amor não desaparece — renasce. Quem semeia alegria por décadas não colhe apenas mágoa; colhe respeito silencioso daqueles que realmente viram sua luz. E Deus, como diz o povo da roça, "não dorme no ponto": Ele reserva bênçãos dobradas para quem foi injustiçado com as mãos limpas e o coração aberto.
A roda gira. O tempo responde. E Ilhéus — essa terra que respira cultura — sabe quem é seu filho legítimo. Não será uma decisão administrativa que apagará o que Abidias inscreveu na memória afetiva da cidade.
Meu amigo, o bloco pode ter seguido sem seu grito, mas a rua sentiu sua falta. E enquanto houver um tambor batendo em Ilhéus, haverá eco da sua batida. Continue tocando — não para eles, mas para quem te ama de verdade. Para seus três filhos, que têm no pai um exemplo de garra. Para sua esposa, que viu você transformar suor em arte. E para você mesmo, Abidias: porque o mundo ainda precisa da sua música, do seu sorriso, da sua fé.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura — mas o que você construiu não foi em pedra: foi no coração do povo. E isso, ninguém muda.
Ilhéus Informe — porque cultura se honra, e quem faz história merece respeito.
Meu amigo e irmão Abdias foi injustiçado, ele é o melhor e continuará sendo um dos melhores músicos de Ilhéus!
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